É uma hora difícil. Este período que não noite nem é dia, em que não estamos ainda no espírito nocturno do descanso, nem já é dia para estarmos focados nos trabalhos que temos em mãos. É a hora em que o espírito se vai adaptando a custo à sua nova situação, mantendo, no entanto, uma vigilância preocupada e pensativa nos assuntos que aos poucos se vão desvanecendo e sendo adiados para amanhã.
Conta-se que certo ginecologista estava a esta hora, ainda, no seu consultório a acabar os últimos assuntos pendentes. Já tinha tirado a bata e estava de mangas arregaçadas, com a gravata folgada no nó para lhe dar uma maior sensação de conforto; estava já no tal espírito transitório de quem se prepara para fechar a porta e ir descansar.
Dirigiu-se a uma pequena garrafeira que tinha no canto do consultório, serviu-se de um whiskey e sentou-se, disposto a acabar aqueles restos de papelada que lhe sobravam na secretária.
Tocaram à porta.
Um pouco contrariado lá resolveu ir ver quem era e deparou com uma jovem senhora, que, preocupada, lhe explicou a sua situação.
- Boa noite… Desculpe-me bater-lhe à porta a esta hora. Eu tinha uma consulta marcada para hoje mas não pude vir porque tive contratempos no emprego. Acontece que por motivos familiares não vou poder voltar durante duas ou três semanas e gostava, e precisava, de ser consultada. O senhor está ainda em condições de me receber?
O médico hesitou. Depois lá assentiu:
- Entre… eu estava, de facto, a acabar… mas seja, venha comigo.
A jovem agradeceu e seguiu o médico escada acima até ao gabinete.
- Estava já em traje de saída… - sorriu o médico – sente-se, esteja à vontade. Estava a acabar estes papéis, também já não falta muito. Aceita qualquer coisa para beber enquanto acabo isto? Fazemos a consulta a seguir…
A jovem aceitou e ficaram um bocado a conversar, enquanto o médico fazia os seus rabiscos. Ficaram assim um bocado, a conversar descontraidamente, trocando impressões e contando pequenas coisas, a falar da vida de cada um, naquela descontracção de quem está a sentir que o dia chegou mesmo ao fim.
Deixaram-se estar, até que a conversa foi interrompida por um ruído de chave a entrar na fechadura da porta, o ruído de alguém a entrar e, finalmente, o barulho de uns sapatos de salto a subir as escadas.
O médico empalideceu, algo lhe tinha escapado, de facto…
- Depressa! – disse ele para a jovem – é a minha mulher… Dispa-se e abra as pernas ali na marquesa! Ela não nos pode ver assim…
quarta-feira, 2 de julho de 2008
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Girls in their summer clothes
Dizia uma moça brasileira para outra:
- Você já viu? Esta gente aqui? São tão “chiqui” no Inverno… mas no verão… parece pobreza, né?
- Você já viu? Esta gente aqui? São tão “chiqui” no Inverno… mas no verão… parece pobreza, né?
O bailarino
O homem entrou na repartição pública com o ar gingão e ritmado de quem vem a ouvir música por dentro. Era um tipo dos seus quarenta e tal, um bocado suado do calor e com uma camisa verde clara de mangas curtas por fora das calças, daquelas que se usam a disfarçar a barriguita que já vai num estado avançado na protuberância.
Entrou na sala a gingar e estacou por um momento numa pose teatral, bem à frente das pessoas sentadas à espera da sua vez. Depois começou a olhar em volta, para todos os pontos da sala, como que à procura de qualquer coisa, enquanto com as mãos e com os pés executava uma curiosa coreografia ondulada, como que apontando para sítios vagos, voltando atrás constantemente, para logo depois voltar a apontar para outros sítios, com o corpo a dançar ao som dos Bee Gees.
Dentre as pessoas que observavam, sem perceber bem o que se passava, uma senhora ucraniana percebeu que talvez fosse melhor dar um rumo àquele homem e começou a apontar para a maquineta vermelha na parede onde se podem tirar os bilhetes que ordenam o público.
Num momento e já várias mãos apontavam para o desenrolador dos bilhetes, mas o homem parecia não perceber e continuava a dançar, com os olhos a percorrer a sala toda, desde o relógio na parede do fundo da sala até às pernas das senhoras sentadas.
De repente uma voz eleva-se do fundo da plateia e diz:
- Oh homem! Está aí à frente pá! A máquina dos números está aí mesmo à frente!
O outro lá acordou da transe, fez um gesto com as mãos como quem diz “Eureka!” e chegou-se à frente para recolher um papelinho da máquina.
Foi sentar-se enquanto com um sorriso se dirigia ao homem do berro:
- Está aqui mesmo à frente, não estava a ver!
- Pois… - Concordou o outro – Eles puseram isto num sítio que não se vê bem.
Entrou na sala a gingar e estacou por um momento numa pose teatral, bem à frente das pessoas sentadas à espera da sua vez. Depois começou a olhar em volta, para todos os pontos da sala, como que à procura de qualquer coisa, enquanto com as mãos e com os pés executava uma curiosa coreografia ondulada, como que apontando para sítios vagos, voltando atrás constantemente, para logo depois voltar a apontar para outros sítios, com o corpo a dançar ao som dos Bee Gees.
Dentre as pessoas que observavam, sem perceber bem o que se passava, uma senhora ucraniana percebeu que talvez fosse melhor dar um rumo àquele homem e começou a apontar para a maquineta vermelha na parede onde se podem tirar os bilhetes que ordenam o público.
Num momento e já várias mãos apontavam para o desenrolador dos bilhetes, mas o homem parecia não perceber e continuava a dançar, com os olhos a percorrer a sala toda, desde o relógio na parede do fundo da sala até às pernas das senhoras sentadas.
De repente uma voz eleva-se do fundo da plateia e diz:
- Oh homem! Está aí à frente pá! A máquina dos números está aí mesmo à frente!
O outro lá acordou da transe, fez um gesto com as mãos como quem diz “Eureka!” e chegou-se à frente para recolher um papelinho da máquina.
Foi sentar-se enquanto com um sorriso se dirigia ao homem do berro:
- Está aqui mesmo à frente, não estava a ver!
- Pois… - Concordou o outro – Eles puseram isto num sítio que não se vê bem.
domingo, 29 de junho de 2008
O princípio de Peter
Fumar um cachimbo ao vento tem as suas dificuldades práticas. A atmosfera em movimento faz com que o cachimbo arda mais depressa do que seria normal numa massa de ar estática e faz com que o cachimbo possa aquecer demais ou que o tabaco queime de forma irregular. É melhor um cachimbo de fornilho estreito e fundo, para que a área do tabaco em combustão seja menor, e diminuir de alguma forma estes inconvenientes.
Havia em Douglas um individuo que gostava de se dirigir às falésias, normalmente em dias nebulados, para fumar longamente um já velho mas magnífico billiard de linhas soberbas e discretas, que encontrara um dia a preços ridículos numa feira de velharias, no seu lugar favorito que era uma varanda sobre o mar, talvez cem pés acima da linha de água, e cujo o acesso difícil se fazia apenas a pé ou a cavalo ao longo de cerca de uma milha de carreiros estreitos e sinuosos, entre urzes encravadas nas pedras irregulares do terreno calcário.
Nunca se soube bem quem era aquele homem e que ocupação tinha. Aparecia raramente na cidade e vivia numa casa isolada nas redondezas. Poderia ser escritor, era de poucas palavras e não gostava muito de sair. Há quem se lembre de uma mulher, muito mais nova do que ele, escandinava talvez, que viveu com ele alguns anos. Ela saía, era vista na cidade, principalmente na praça dos frescos, e chamava a atenção pela beleza serena e o olhar profundo e claro.
Mas dizem que há já muito tempo que essa senhora desapareceu, não foi mais vista, e o indivíduo de que falamos terá vivido desde então apenas só. Não se lhe conheceu mais ninguém.
Os raros passeios que dava eram até à falésia. Caminhava lentamente pelos carreiros, apreciava e ar húmido e marinho que respirava de narinas e peito bem abertos. Levava o tempo que fosse preciso para chegar à varanda donde tinha uma visão imponente do mar em tons de verde e cinza a fustigar as falésias no seu movimento perpétuo de água e espuma que se eleva alto para depois cair num fragor surdo que parece vir das entranhas da terra.
Sentava-se.
Costumava ficar a olhar para a paisagem grandiosa e rude à sua volta o tempo que fosse necessário até voltar a sentir a respiração regulada e o coração no seu bater normal.
Começava então o procedimento minucioso e propositadamente demorado de preparar o cachimbo para ser fumado. Fumar cachimbo é um acto de ociosidade deliberada. Não há um qualquer momento da sua preparação e posterior desfrute que proporcione pressa e que possa ser feito num sentimento de urgência. É uma afronta pessoal do individuo contra a agitação da vida.
Começa-se por observar minuciosamente o cachimbo; aprecia-se a cor, o aspecto, o polimento, toca-se, sente-se a textura inconfundível do briar na palma da mão e nos dedos, e procuram-se os sinais de que o tempo tem passado sobre o nosso fiel companheiro.
Depois raspa-se, limpa-se o fornilho, que na verdade já foi limpo no fim da utilização anterior, dos restos imaginários de alcatrão e tabaco queimado. Sopra-se, cheira-se, aprecia-se o aroma, limpa-se, mas nunca, nunca, nunca se deve bater um cachimbo.
Quando estamos finalmente convencidos de que o cachimbo está limpo, tiramos uma porção de tabaco que se põe ao ar. Devemos separar os filamentos e procurar defeitos ou corpos estranhos que possam prejudicar a qualidade do fumo e, neste tempo de observação minuciosa, damos também oportunidade a que a humidade do tabaco se possa libertar, ficando o tabaco um pouco mais seco e uniforme, o que fará com que queime de uma forma mais agradável.
O enchimento é sempre uma tarefa delicada. Normalmente faz-se por camadas sobrepostas. Enche-se o cachimbo até cima com tabaco e calca-se até ficar a ocupar talvez metade do volume do fornilho. Depois volta-se a encher o espaço que sobra e calca-se de novo. Volta-se a repetir a tarefa até o tabaco encher por completo o fornilho e apresentar uma estrutura macia mas consistente.
Quando temos o cachimbo preparado, estamos então em condições de nos recostar e desfrutar do primeiro fumo. O primeiro fumo é um fumo preparatório, serve só para preparar o tabaco para uma queima regular. Acende-se com um fósforo ou um isqueiro e espalha-se uma chama abundante por toda a superfície do tabaco. Chupa-se, lentamente, sempre lentamente, e deixa-se que a brasa se apague. Calca-se de novo a cinza sobre a sua cama de tabaco e dá-se fogo novamente. Poderemos então desfrutar de um fumo lento e regular, feito ao ritmo das horas vagas e das ondas a rebentar na falésia. Uma hora talvez, em que o homem se remete ao mais profundo de si mesmo num acto de puro egoísmo e prazer.
Havia muitos anos já que o tal senhor fazia aquele caminho até à falésia. Já muitas vezes fizera os carreiros pedregosos e conhecia as pedras de cor.
Sentou-se muitas vezes por ali, a fumar e a ver o mar, enquanto dentro de si formava uma ideia que foi crescendo e fortalecendo com o tempo, até tomar a forma de uma decisão inabalável. "Não".
Não, ele não iria morrer de velho e senil. Se não lhe tinham dado a escolher o nascer ou não, nem o dia, nada, então sentia-se no direito de escolher o dia do fim. É uma questão de justiça. Com o tempo foi formando a ideia que chegaria um dia em que olharia para si mesmo e decidiria se ainda havia razões para continuar, se as suas condições físicas e psíquicas justificavam mais uma viagem de volta a casa.
Hoje sentou-se, como fez já muitas vezes, e acendeu o cachimbo. Nada o prende, nem ninguém, agora já não. Fumou o cachimbo e deixou-se ficar a olhar o mar duro e bruto que vai moendo as rochas lentamente. Hoje não lhe apetece ir para casa, não lhe apetece fazer os carreiros das urzes de novo. Respira fundo. A luz é clara. O ar está fresco, numa atmosfera suspensa. Respira fundo, enquanto limpa o cachimbo minuciosamente. Guarda o cachimbo num bolso interior do casaco enquanto se levanta e observa a espuma a rebentar no fundo rochoso. Respira fundo. Olha para o caminho das urzes. Respira fundo, e precipita-se no vácuo.
Havia em Douglas um individuo que gostava de se dirigir às falésias, normalmente em dias nebulados, para fumar longamente um já velho mas magnífico billiard de linhas soberbas e discretas, que encontrara um dia a preços ridículos numa feira de velharias, no seu lugar favorito que era uma varanda sobre o mar, talvez cem pés acima da linha de água, e cujo o acesso difícil se fazia apenas a pé ou a cavalo ao longo de cerca de uma milha de carreiros estreitos e sinuosos, entre urzes encravadas nas pedras irregulares do terreno calcário.
Nunca se soube bem quem era aquele homem e que ocupação tinha. Aparecia raramente na cidade e vivia numa casa isolada nas redondezas. Poderia ser escritor, era de poucas palavras e não gostava muito de sair. Há quem se lembre de uma mulher, muito mais nova do que ele, escandinava talvez, que viveu com ele alguns anos. Ela saía, era vista na cidade, principalmente na praça dos frescos, e chamava a atenção pela beleza serena e o olhar profundo e claro.
Mas dizem que há já muito tempo que essa senhora desapareceu, não foi mais vista, e o indivíduo de que falamos terá vivido desde então apenas só. Não se lhe conheceu mais ninguém.
Os raros passeios que dava eram até à falésia. Caminhava lentamente pelos carreiros, apreciava e ar húmido e marinho que respirava de narinas e peito bem abertos. Levava o tempo que fosse preciso para chegar à varanda donde tinha uma visão imponente do mar em tons de verde e cinza a fustigar as falésias no seu movimento perpétuo de água e espuma que se eleva alto para depois cair num fragor surdo que parece vir das entranhas da terra.
Sentava-se.
Costumava ficar a olhar para a paisagem grandiosa e rude à sua volta o tempo que fosse necessário até voltar a sentir a respiração regulada e o coração no seu bater normal.
Começava então o procedimento minucioso e propositadamente demorado de preparar o cachimbo para ser fumado. Fumar cachimbo é um acto de ociosidade deliberada. Não há um qualquer momento da sua preparação e posterior desfrute que proporcione pressa e que possa ser feito num sentimento de urgência. É uma afronta pessoal do individuo contra a agitação da vida.
Começa-se por observar minuciosamente o cachimbo; aprecia-se a cor, o aspecto, o polimento, toca-se, sente-se a textura inconfundível do briar na palma da mão e nos dedos, e procuram-se os sinais de que o tempo tem passado sobre o nosso fiel companheiro.
Depois raspa-se, limpa-se o fornilho, que na verdade já foi limpo no fim da utilização anterior, dos restos imaginários de alcatrão e tabaco queimado. Sopra-se, cheira-se, aprecia-se o aroma, limpa-se, mas nunca, nunca, nunca se deve bater um cachimbo.
Quando estamos finalmente convencidos de que o cachimbo está limpo, tiramos uma porção de tabaco que se põe ao ar. Devemos separar os filamentos e procurar defeitos ou corpos estranhos que possam prejudicar a qualidade do fumo e, neste tempo de observação minuciosa, damos também oportunidade a que a humidade do tabaco se possa libertar, ficando o tabaco um pouco mais seco e uniforme, o que fará com que queime de uma forma mais agradável.
O enchimento é sempre uma tarefa delicada. Normalmente faz-se por camadas sobrepostas. Enche-se o cachimbo até cima com tabaco e calca-se até ficar a ocupar talvez metade do volume do fornilho. Depois volta-se a encher o espaço que sobra e calca-se de novo. Volta-se a repetir a tarefa até o tabaco encher por completo o fornilho e apresentar uma estrutura macia mas consistente.
Quando temos o cachimbo preparado, estamos então em condições de nos recostar e desfrutar do primeiro fumo. O primeiro fumo é um fumo preparatório, serve só para preparar o tabaco para uma queima regular. Acende-se com um fósforo ou um isqueiro e espalha-se uma chama abundante por toda a superfície do tabaco. Chupa-se, lentamente, sempre lentamente, e deixa-se que a brasa se apague. Calca-se de novo a cinza sobre a sua cama de tabaco e dá-se fogo novamente. Poderemos então desfrutar de um fumo lento e regular, feito ao ritmo das horas vagas e das ondas a rebentar na falésia. Uma hora talvez, em que o homem se remete ao mais profundo de si mesmo num acto de puro egoísmo e prazer.
Havia muitos anos já que o tal senhor fazia aquele caminho até à falésia. Já muitas vezes fizera os carreiros pedregosos e conhecia as pedras de cor.
Sentou-se muitas vezes por ali, a fumar e a ver o mar, enquanto dentro de si formava uma ideia que foi crescendo e fortalecendo com o tempo, até tomar a forma de uma decisão inabalável. "Não".
Não, ele não iria morrer de velho e senil. Se não lhe tinham dado a escolher o nascer ou não, nem o dia, nada, então sentia-se no direito de escolher o dia do fim. É uma questão de justiça. Com o tempo foi formando a ideia que chegaria um dia em que olharia para si mesmo e decidiria se ainda havia razões para continuar, se as suas condições físicas e psíquicas justificavam mais uma viagem de volta a casa.
Hoje sentou-se, como fez já muitas vezes, e acendeu o cachimbo. Nada o prende, nem ninguém, agora já não. Fumou o cachimbo e deixou-se ficar a olhar o mar duro e bruto que vai moendo as rochas lentamente. Hoje não lhe apetece ir para casa, não lhe apetece fazer os carreiros das urzes de novo. Respira fundo. A luz é clara. O ar está fresco, numa atmosfera suspensa. Respira fundo, enquanto limpa o cachimbo minuciosamente. Guarda o cachimbo num bolso interior do casaco enquanto se levanta e observa a espuma a rebentar no fundo rochoso. Respira fundo. Olha para o caminho das urzes. Respira fundo, e precipita-se no vácuo.
sábado, 28 de junho de 2008
De certeza
Sejam modelos de gases perfeitos.
Estatísticas e sondagens.
Boletins meteorológicos, medições feitas com micrómetro, temperaturas onde quer que seja.
Sejam guerras, revoluções, mísseis intercontinentais, pontos de pouso na superfície de Marte.
Sejam investimentos na bolsa, compra e venda do que quiser, cisão do átomo, ou se vamos ou não ao café.
Sejam horários de comboios, os encontros dos amores, ou se chegamos vivos a casa.
Seja tudo.
A única certeza que temos é que a todas as coisas está associado um certo grau de incerteza.
Estatísticas e sondagens.
Boletins meteorológicos, medições feitas com micrómetro, temperaturas onde quer que seja.
Sejam guerras, revoluções, mísseis intercontinentais, pontos de pouso na superfície de Marte.
Sejam investimentos na bolsa, compra e venda do que quiser, cisão do átomo, ou se vamos ou não ao café.
Sejam horários de comboios, os encontros dos amores, ou se chegamos vivos a casa.
Seja tudo.
A única certeza que temos é que a todas as coisas está associado um certo grau de incerteza.
O stress
A hora era a combinada. O pintor apareceu na oficina, que é ao lado de casa, ainda a soluçar do almoço comido à pressa.
- Então? – Dizia ele bem disposto – Vamos ver o carro? Eu não te disse? O almoço é coisa de dez minutos, um quarto de hora, vá…
- Vamos… Mas olha que isso faz-te mal…
- O quê? O almoço?
- Sim… assim comido à pressa… dá cabo da saúde.
- Eh pá… mas eu não sei comer de outra maneira, foi sempre assim. Se a comida se come em dez minutos, porque haveria de levar mais tempo? Estás a ver…
- Mas faz mal! Dá cabo do estômago por exemplo. E comer devagar é daquelas coisas boas para combater o stress. Se escolheres comer devagar, comer em mais tempo o que comes em dez minutos, as coisas sabem-te melhor e é um período bom para descansar e organizar ideias.
- Pois… Mas sabes que isso do stress é coisa a que não consigo fugir. Desde os onze anos! Desde os onze anos ó pá! Desde que trabalho sempre fui assim. E sabes uma coisa? Eu acho que não sei viver sem stress…
- Pois não sei… mas olha que o stress combate-se. É uma questão, em primeiro lugar, de teres uma atitude deliberada de recusa do stress, e, por outro lado, de teres a vida organizada, assim o stress baixa muito.
O pintor ficou a olhar para mim pensativo.
- Eu já tenho pensado muitas vezes que devia fazer qualquer coisa… a sério que sim. Às vezes um homem parece que vai morrer. Já pensei até em meter-me aí num curso qualquer para organizar melhor as coisas, sim… acredito que pudesse ser bom.
- Pois era! E depois as coisas vão evoluindo; quanto mais organizado estás, mais tens capacidade para recusar o stress, e quanto mais recusas mais te organizas… Estás a perceber?
- Sim, sim! Claro uma coisa puxa a outra…
- Pois puxa… Vamos ver o carro então?
- Vamos lá ver isso.
- Experimenta começar por almoçar em meia hora.
- Sim… vou experimentar…
- Então? – Dizia ele bem disposto – Vamos ver o carro? Eu não te disse? O almoço é coisa de dez minutos, um quarto de hora, vá…
- Vamos… Mas olha que isso faz-te mal…
- O quê? O almoço?
- Sim… assim comido à pressa… dá cabo da saúde.
- Eh pá… mas eu não sei comer de outra maneira, foi sempre assim. Se a comida se come em dez minutos, porque haveria de levar mais tempo? Estás a ver…
- Mas faz mal! Dá cabo do estômago por exemplo. E comer devagar é daquelas coisas boas para combater o stress. Se escolheres comer devagar, comer em mais tempo o que comes em dez minutos, as coisas sabem-te melhor e é um período bom para descansar e organizar ideias.
- Pois… Mas sabes que isso do stress é coisa a que não consigo fugir. Desde os onze anos! Desde os onze anos ó pá! Desde que trabalho sempre fui assim. E sabes uma coisa? Eu acho que não sei viver sem stress…
- Pois não sei… mas olha que o stress combate-se. É uma questão, em primeiro lugar, de teres uma atitude deliberada de recusa do stress, e, por outro lado, de teres a vida organizada, assim o stress baixa muito.
O pintor ficou a olhar para mim pensativo.
- Eu já tenho pensado muitas vezes que devia fazer qualquer coisa… a sério que sim. Às vezes um homem parece que vai morrer. Já pensei até em meter-me aí num curso qualquer para organizar melhor as coisas, sim… acredito que pudesse ser bom.
- Pois era! E depois as coisas vão evoluindo; quanto mais organizado estás, mais tens capacidade para recusar o stress, e quanto mais recusas mais te organizas… Estás a perceber?
- Sim, sim! Claro uma coisa puxa a outra…
- Pois puxa… Vamos ver o carro então?
- Vamos lá ver isso.
- Experimenta começar por almoçar em meia hora.
- Sim… vou experimentar…
sexta-feira, 27 de junho de 2008
O louco
Há certo louco que passeia o dia todo pelas ruas da minha cidade. É um tipo de cinquenta anos talvez. Anda pobremente vestido, normalmente a empurrar uma bicicleta para onde quer que vá, e a gritar, a praguejar, a berrar bem alto o que lhe vai na alma. Usa uma barba crescida, que apara de vez em quando, e é daquelas pessoas com quem alguns gostam de meter conversa, só para se rirem um bocado da loucura do senhor.
Há dias caminhava pela rua e vejo o dito homem aos berros como sempre, de braços no ar a gritar para o outro lado da rua.
- Benfica!!
Do outro lado estavam talvez quatro rapazes a dar resposta.
- Sporting!!!
- Benficaaaaaa!
- Spoooorrtiiinggg!
- BENFICAAAAAAAA!!!!!
- SPOOOOOOOOOOOORTIIIIIIIIIIIIING!!!
Ao passar perto dele, o homem parou e afastou-se para me deixar passar. Tinha um sorrisinho nos lábios.
- Gosto mesmo de os pôr a fazer figuras de parvo… - confidenciou a rir.
Há dias caminhava pela rua e vejo o dito homem aos berros como sempre, de braços no ar a gritar para o outro lado da rua.
- Benfica!!
Do outro lado estavam talvez quatro rapazes a dar resposta.
- Sporting!!!
- Benficaaaaaa!
- Spoooorrtiiinggg!
- BENFICAAAAAAAA!!!!!
- SPOOOOOOOOOOOORTIIIIIIIIIIIIING!!!
Ao passar perto dele, o homem parou e afastou-se para me deixar passar. Tinha um sorrisinho nos lábios.
- Gosto mesmo de os pôr a fazer figuras de parvo… - confidenciou a rir.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
A tortuosa contradição do querer
Ela é uma bela e jovem mulher, nos seus vinte e cinco talvez, que trabalha nos bares ao fim-de-semana como actividade secundária. É jovem, bonita, saudável e veste-se de maneira que atrai os olhares. Serve bebidas com ar antipático e distante, foi a defesa que encontrou para os olhares lançados do lado de lá pelos clientes homens que se acumulam pela zona do balcão e que, naturalmente, não conseguem resistir à tentação de olhar e tentar ser mais simpáticos com ela do que seriam com outras. Diz que detesta esta profissão exactamente porque não suporta a forma como os homens olham para ela.
A certo cliente irrita-o aquele ar de mulher presunçosa, bonita mas trombuda que serve bebidas com o ar de quem não vê, não olha, não sorri e por maioria de razão não é capaz de conversar com ninguém, muito menos gracejar.
Tomou desde que a viu, e por instinto, a atitude deliberada de não olhar para ela, de desviar o olhar quando se cruzam, e de lhe falar com voz seca e autoritária como quem fala com um capataz.
Comeram-se uma noite destas.
A certo cliente irrita-o aquele ar de mulher presunçosa, bonita mas trombuda que serve bebidas com o ar de quem não vê, não olha, não sorri e por maioria de razão não é capaz de conversar com ninguém, muito menos gracejar.
Tomou desde que a viu, e por instinto, a atitude deliberada de não olhar para ela, de desviar o olhar quando se cruzam, e de lhe falar com voz seca e autoritária como quem fala com um capataz.
Comeram-se uma noite destas.
Sociedade antónima
Trrrrimm... Trrrriiimmm...
- "Empresa X", bom dia...
(agora eu)
- Bom dia minha senhora, preciso talvez da sua ajuda... Ontem cheguei de manhã ao pé de um carro que eu tenho, um Renault Clio, e ele estava amolgado. Tinha no vidro um papel com dois números de telefone; um telemóvel e este número com que estamos a falar. O número de telemóvel é o YYYYYYYYY. Saberá dizer-me quem é esta pessoa?
- Esse é o número do meu colega F.....
- Posso falar então com esse senhor?
- Vou passar, espere um momento....
(espera)
- Está ?! (Ouvem-se máquinas ao fundo)
- Bom dia!
- Bom dia!
- É o senhor F?
- Sim, sim sou eu!
- Ligo-lhe por causa de um papel que encontrei no vidro de um Clio amolgado; tinha o seu número. Venho saber o porquê deste facto.
- Sim, sim! Pois fui eu que lhe amolguei o carro. Deixei o número para que você possa passar por aqui quando quiser para arranjarmos o carro. Há que fazer um orçamento, e depois tratamos disso. Sabe onde fica a empresa X?
- Não sei bem mas terei de procurar... Quando quer que eu apareça aí?
- Hoje vou estar fora, mas a partir de amanhã pode vir quando quiser.
- Está bem, irei amanhã, em princípio, ou então segunda, falaremos depois.
- Está bem. Distraí-me com a carrinha, é maior do que o carro e por isso não deu bem para ver o que estava a fazer...
- Pois, não se preocupe, os acidentes acontecem. Abraço e até amanhã.
- Seja. Até amanhã.
- "Empresa X", bom dia...
(agora eu)
- Bom dia minha senhora, preciso talvez da sua ajuda... Ontem cheguei de manhã ao pé de um carro que eu tenho, um Renault Clio, e ele estava amolgado. Tinha no vidro um papel com dois números de telefone; um telemóvel e este número com que estamos a falar. O número de telemóvel é o YYYYYYYYY. Saberá dizer-me quem é esta pessoa?
- Esse é o número do meu colega F.....
- Posso falar então com esse senhor?
- Vou passar, espere um momento....
(espera)
- Está ?! (Ouvem-se máquinas ao fundo)
- Bom dia!
- Bom dia!
- É o senhor F?
- Sim, sim sou eu!
- Ligo-lhe por causa de um papel que encontrei no vidro de um Clio amolgado; tinha o seu número. Venho saber o porquê deste facto.
- Sim, sim! Pois fui eu que lhe amolguei o carro. Deixei o número para que você possa passar por aqui quando quiser para arranjarmos o carro. Há que fazer um orçamento, e depois tratamos disso. Sabe onde fica a empresa X?
- Não sei bem mas terei de procurar... Quando quer que eu apareça aí?
- Hoje vou estar fora, mas a partir de amanhã pode vir quando quiser.
- Está bem, irei amanhã, em princípio, ou então segunda, falaremos depois.
- Está bem. Distraí-me com a carrinha, é maior do que o carro e por isso não deu bem para ver o que estava a fazer...
- Pois, não se preocupe, os acidentes acontecem. Abraço e até amanhã.
- Seja. Até amanhã.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Carta da senhora reformada a quem enrabaram o cão
Lugar Sem Nome, 25 de Junho de 2008
Cara e excelêntissima vizinha,
É com consternação e humor preocupado que lhe dirijo esta carta, que já há vários dias deveria ter sido escrita, onde venho manifestar o meu repúdio e intensa revolta pelas actividades do seu Marecos.
Eu sei que o Marecos era um cão inteligente, forte, de boa aparência e que apesar de ser rafeiro rivalizava em postura e apresentação com qualquer Golden Retriever ou Labrador. Um cão muito bonito, e até muito simpático, sempre gostei muito dele, e ficava sempre muito contente quando o via saltar a grade do seu quintal para vir ter comigo e dar-me lambidelas nas mãos e no rosto, cumprimentos que eu retribuia com alguma goluseima que trouxesse, e houve tempos até em que me preocupava em ter sempre de reserva para o Marecos um pacote dos mesmos biscoitos que costumo comprar para o meu Lancelote, que como saberá é, ou antes era, um bonito pincher que me deu a minha querida e saudosa filha no dia do primeiro aniversário do falecimento de meu querido e saudoso marido.
Sempre gostei do Marecos e sempre lhe dei carinho e atenção, e houve alturas até em que o mantive em minha casa durante as férias da minha querida vizinha, quando ia para o Algarve, coisa que fiz sempre com muito gosto porque gosto de animais e não me sinto bem numa casa vazia, agora que todos partiram.
Desde há uns tempos vinha acontecendo que o Marecos vinha brincar com o Lancelote, e, outras vezes ia o Lancelote brincar com o Marecos, ora no meu quintal, ora no seu, mas sem eu nunca desconfiar das actividades a que eles se dedicavam.
Foi portanto com espanto que encontrei os dois, dentro da casota do Lancelote, dedicados à mais pecaminosa promiscuidade, sendo que os gritos do Lancelote eram tão altos que eu tive de descer ao terraço para ir ver o que se passava. O Marecos possuiu, e continuou a possuir durante semanas ou meses o meu Lancelote!
Eu não posso compreender isto, são coisas que não entendo e duvido que a minha vizinha possa compreender também como é que um cão como o Marecos, que teve sempre tanto sucesso junto das cadelinhas suas amigas - eu não sou de intrigas mas até acho que ele teve um caso com a cadelinha da nossa vizinha Adelaide, mas não lhe diga nada - poderá ter virado o seu instinto animal para um cãozinho tão simpático e feliz como era o Lancelote.
É uma tristeza que me fica. O Marecos maltratou, estropiou, mordeu, rosnou e atemorizou o meu Lancelote. Nunca esperaria isso do seu cão minha amiga... E não lhe perdoo.
Agora que o Marecos morreu atropelado, o que imagino lhe cause também muita tristeza, o Lancelote anda muito em baixo, sem apetite, e desde há vários dias que percebo que passa o tempo no seu quintal, provavelmente à procura do Marecos.
Esta carta foi escrita para lhe pedir o favor de me trazer o Lancelote que me faz muita falta por ser tão boa companhia e convidá-la desde já para vir tomar um chá cá a casa para pormos as conversas em dia. Venha logo que possa, sabe bem que as minhas portas estão sempre abertas para si.
Os melhores cumprimentos para a minha vizinha e para o senhor arquitecto.
Alzira
Cara e excelêntissima vizinha,
É com consternação e humor preocupado que lhe dirijo esta carta, que já há vários dias deveria ter sido escrita, onde venho manifestar o meu repúdio e intensa revolta pelas actividades do seu Marecos.
Eu sei que o Marecos era um cão inteligente, forte, de boa aparência e que apesar de ser rafeiro rivalizava em postura e apresentação com qualquer Golden Retriever ou Labrador. Um cão muito bonito, e até muito simpático, sempre gostei muito dele, e ficava sempre muito contente quando o via saltar a grade do seu quintal para vir ter comigo e dar-me lambidelas nas mãos e no rosto, cumprimentos que eu retribuia com alguma goluseima que trouxesse, e houve tempos até em que me preocupava em ter sempre de reserva para o Marecos um pacote dos mesmos biscoitos que costumo comprar para o meu Lancelote, que como saberá é, ou antes era, um bonito pincher que me deu a minha querida e saudosa filha no dia do primeiro aniversário do falecimento de meu querido e saudoso marido.
Sempre gostei do Marecos e sempre lhe dei carinho e atenção, e houve alturas até em que o mantive em minha casa durante as férias da minha querida vizinha, quando ia para o Algarve, coisa que fiz sempre com muito gosto porque gosto de animais e não me sinto bem numa casa vazia, agora que todos partiram.
Desde há uns tempos vinha acontecendo que o Marecos vinha brincar com o Lancelote, e, outras vezes ia o Lancelote brincar com o Marecos, ora no meu quintal, ora no seu, mas sem eu nunca desconfiar das actividades a que eles se dedicavam.
Foi portanto com espanto que encontrei os dois, dentro da casota do Lancelote, dedicados à mais pecaminosa promiscuidade, sendo que os gritos do Lancelote eram tão altos que eu tive de descer ao terraço para ir ver o que se passava. O Marecos possuiu, e continuou a possuir durante semanas ou meses o meu Lancelote!
Eu não posso compreender isto, são coisas que não entendo e duvido que a minha vizinha possa compreender também como é que um cão como o Marecos, que teve sempre tanto sucesso junto das cadelinhas suas amigas - eu não sou de intrigas mas até acho que ele teve um caso com a cadelinha da nossa vizinha Adelaide, mas não lhe diga nada - poderá ter virado o seu instinto animal para um cãozinho tão simpático e feliz como era o Lancelote.
É uma tristeza que me fica. O Marecos maltratou, estropiou, mordeu, rosnou e atemorizou o meu Lancelote. Nunca esperaria isso do seu cão minha amiga... E não lhe perdoo.
Agora que o Marecos morreu atropelado, o que imagino lhe cause também muita tristeza, o Lancelote anda muito em baixo, sem apetite, e desde há vários dias que percebo que passa o tempo no seu quintal, provavelmente à procura do Marecos.
Esta carta foi escrita para lhe pedir o favor de me trazer o Lancelote que me faz muita falta por ser tão boa companhia e convidá-la desde já para vir tomar um chá cá a casa para pormos as conversas em dia. Venha logo que possa, sabe bem que as minhas portas estão sempre abertas para si.
Os melhores cumprimentos para a minha vizinha e para o senhor arquitecto.
Alzira
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Maneirismos
Enquanto se ria num esgar simpático, torcia as mãos sobre o ventre e esticava o rabo para trás. Coisas de gaja da televisão.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
segunda-feira, 10 de março de 2008
Chuva de Março
A chuva que cai dos céus
em suaves turbilhões,
rega as eiras e, nas hortas,
os tomates aos aldeões.
Rega tudo, lava as ruas,
e as pedras do caminho,
cai nas hortas, rega o grelo,
deixa-o todo molhadinho.
O milagre que cai dos céus,
e alimenta as multidões,
rega as hortas, regas as eiras
e provoca inundações.
em suaves turbilhões,
rega as eiras e, nas hortas,
os tomates aos aldeões.
Rega tudo, lava as ruas,
e as pedras do caminho,
cai nas hortas, rega o grelo,
deixa-o todo molhadinho.
O milagre que cai dos céus,
e alimenta as multidões,
rega as hortas, regas as eiras
e provoca inundações.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
A pergunta
-Ai senhor! Posso fazer uma pergunta? Há alguma coisa que eu possa fazer que me faça merecer 15 euros?
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
O sexo e os amigos
A B. está com um ar cansado. Teve muito sexo a semana toda, tem trabalhado muito e tem dormido pouco.
Passou por aqui este fim-de-semana para conhecer a minha casa e tomar um café.
Diz que não mistura sexo com amizades. Que não se imagina a ter relações com amigos.
E isso tem tido por resultado que não tem muitos amigos, e o sexo tem sido uma merda.
Passou por aqui este fim-de-semana para conhecer a minha casa e tomar um café.
Diz que não mistura sexo com amizades. Que não se imagina a ter relações com amigos.
E isso tem tido por resultado que não tem muitos amigos, e o sexo tem sido uma merda.
domingo, 30 de dezembro de 2007
Conjugação do presente do indicativo do verbo detestar banalidades
Eu detesto banalidades
Tu detestas banalidades
Ele detesta banalidades
Nós detestamos banalidades
Vós detestais banalidades
Eles detestam banalidades
Tu detestas banalidades
Ele detesta banalidades
Nós detestamos banalidades
Vós detestais banalidades
Eles detestam banalidades
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Conto de Natal
Certo homem, levantou-se pela manhã para mais um dia de trabalho.
Ao chegar à casa-de-banho verificou que não tinha água para se lavar nem fazer a barba, tendo verificado de seguida que, de facto, tinha sido cortado o abastecimento por facturas não pagas, o que muito o surpreendeu, já que por várias vezes tinha avisado a companhia que as facturas estavam a ser dirigidas para uma morada errada, porque a menina da companhia tinha sido incompetente e se tinha enganado a introduzir a morada da sua casa no sistema informático da empresa distribuidora de água canalizada.
Dirigiu-se então para a cozinha para tomar o pequeno-almoço; o que não pode fazer porque tinha deixado a porta do frigorífico aberta e o leite tinha-se estragado depois de uma noite à temperatura ambiente.
Foi já irritado que se meteu no elevador e se dirigiu ao carro estacionado na rua para se dirigir para o trabalho.
O homem não queria acreditar no que viu. O lugar onde deixava o carro todos os dias estava vazio. Aparentemente tinha sido roubado! Dirigiu-se ao posto da polícia mais próximo para participar o desaparecimento e, com estes contratempos todos, chegou tardíssimo ao trabalho.
Foi despedido. O patrão estava furioso com o facto de ele ter chegado atrasado, mal vestido e a cheirar mal, logo naquele dia em que havia tantos assuntos importantes para tratar, tantas reuniões importantes para realizar. Ele ainda tentou argumentar, justificar-se com os acontecimentos desse dia, mas o patrão não estava pelos ajustes e mandou-o sair da empresa, alegando que o fazia com justa causa.
Foi um farrapo humano que chegou a casa ao fim do dia e encontrou, em cima da mesa da sala, uma carta da mulher a dizer que o abandonava e que levava os filhos, porque tinha encontrado o amor da vida dela na pessoa de um colega de trabalho de lá do banco, sempre tão simpático, bonito, atencioso e abastado.
Por momentos pensou no suícidio, e foi maquinalmente que saiu de casa e se dirigiu ao bar do costume onde bebeu, bebeu, e bebeu para esquecer aquele dia, aquela vida, a mulher, toda a gente. Naquele dia aquele homem bebeu para morrer.
Quando o bar fechou as portas, e o homem foi mandado para a rua como um fardo que se manda para longe, a noite ía já escura e na rua quase não havia movimento. O homem levou algum tempo até conseguir recobrar um pouco os sentidos e foi com dificuldade que destinguiu um vulto de um homem alto à sua sua frente que o mirava com atenção.
- Credo! Estás bêbado como um cacho! - disse o homem.
O outro mal conseguia articular as palavras.
- Sim... acho que bebi demais... Quem és tu?
- Eu? Não me reconheces? É Natal meu filho. E eu sou o Pai Natal!
O homem tentou focar a figura vermelha que tinha à sua frente.
- O Pai Natal! O Pai Natal! Só tu me poderias ajudar!...
- Ajudar-te? Então?
- Hoje tive o pior dia da minha vida. Roubaram-me o carro, perdi o emprego. A minha mulher fugiu com outro... Dá-me de novo as coisas que perdi!
- Dou-te as coisas que perdestes?
- Sim! Dá-me de novo as coisas que perdi! E a alegria que já não tenho!
O Pai Natal olhou em redor pensativo. E depois lá tomou uma decisão.
- Tudo bem. Eu farei isso. Mas em troca vais-me fazer aqui e agora uma mamada...
O outro nem pensou. Ao saber que podia ter as coisas de volta esclamou.
- Uma mamada! Mil! Por isso faria mil, Pai Natal!
- Óptimo! Então faz-me uma daquelas em que a glande fica apertada entre as amígdalas, e depois estimulas com movimentos de contracção da garganta...
E foi assim que começou a chupar desordenadamente o mastro do Pai Natal. Passado uns minutos, resolveu perguntar:
- Diz-me como vai ser, Pai Natal. Amanhã vou acordar como se nada se tivesse passado?
O Pai Natal olhou para baixo. Hesitou um segundo e perguntou:
- Que idade tens tu meu amigo?
- Eu? Eu tenho quarenta e um anos feitos!
- E com essa idade ainda acreditas no Pai Natal?
Ao chegar à casa-de-banho verificou que não tinha água para se lavar nem fazer a barba, tendo verificado de seguida que, de facto, tinha sido cortado o abastecimento por facturas não pagas, o que muito o surpreendeu, já que por várias vezes tinha avisado a companhia que as facturas estavam a ser dirigidas para uma morada errada, porque a menina da companhia tinha sido incompetente e se tinha enganado a introduzir a morada da sua casa no sistema informático da empresa distribuidora de água canalizada.
Dirigiu-se então para a cozinha para tomar o pequeno-almoço; o que não pode fazer porque tinha deixado a porta do frigorífico aberta e o leite tinha-se estragado depois de uma noite à temperatura ambiente.
Foi já irritado que se meteu no elevador e se dirigiu ao carro estacionado na rua para se dirigir para o trabalho.
O homem não queria acreditar no que viu. O lugar onde deixava o carro todos os dias estava vazio. Aparentemente tinha sido roubado! Dirigiu-se ao posto da polícia mais próximo para participar o desaparecimento e, com estes contratempos todos, chegou tardíssimo ao trabalho.
Foi despedido. O patrão estava furioso com o facto de ele ter chegado atrasado, mal vestido e a cheirar mal, logo naquele dia em que havia tantos assuntos importantes para tratar, tantas reuniões importantes para realizar. Ele ainda tentou argumentar, justificar-se com os acontecimentos desse dia, mas o patrão não estava pelos ajustes e mandou-o sair da empresa, alegando que o fazia com justa causa.
Foi um farrapo humano que chegou a casa ao fim do dia e encontrou, em cima da mesa da sala, uma carta da mulher a dizer que o abandonava e que levava os filhos, porque tinha encontrado o amor da vida dela na pessoa de um colega de trabalho de lá do banco, sempre tão simpático, bonito, atencioso e abastado.
Por momentos pensou no suícidio, e foi maquinalmente que saiu de casa e se dirigiu ao bar do costume onde bebeu, bebeu, e bebeu para esquecer aquele dia, aquela vida, a mulher, toda a gente. Naquele dia aquele homem bebeu para morrer.
Quando o bar fechou as portas, e o homem foi mandado para a rua como um fardo que se manda para longe, a noite ía já escura e na rua quase não havia movimento. O homem levou algum tempo até conseguir recobrar um pouco os sentidos e foi com dificuldade que destinguiu um vulto de um homem alto à sua sua frente que o mirava com atenção.
- Credo! Estás bêbado como um cacho! - disse o homem.
O outro mal conseguia articular as palavras.
- Sim... acho que bebi demais... Quem és tu?
- Eu? Não me reconheces? É Natal meu filho. E eu sou o Pai Natal!
O homem tentou focar a figura vermelha que tinha à sua frente.
- O Pai Natal! O Pai Natal! Só tu me poderias ajudar!...
- Ajudar-te? Então?
- Hoje tive o pior dia da minha vida. Roubaram-me o carro, perdi o emprego. A minha mulher fugiu com outro... Dá-me de novo as coisas que perdi!
- Dou-te as coisas que perdestes?
- Sim! Dá-me de novo as coisas que perdi! E a alegria que já não tenho!
O Pai Natal olhou em redor pensativo. E depois lá tomou uma decisão.
- Tudo bem. Eu farei isso. Mas em troca vais-me fazer aqui e agora uma mamada...
O outro nem pensou. Ao saber que podia ter as coisas de volta esclamou.
- Uma mamada! Mil! Por isso faria mil, Pai Natal!
- Óptimo! Então faz-me uma daquelas em que a glande fica apertada entre as amígdalas, e depois estimulas com movimentos de contracção da garganta...
E foi assim que começou a chupar desordenadamente o mastro do Pai Natal. Passado uns minutos, resolveu perguntar:
- Diz-me como vai ser, Pai Natal. Amanhã vou acordar como se nada se tivesse passado?
O Pai Natal olhou para baixo. Hesitou um segundo e perguntou:
- Que idade tens tu meu amigo?
- Eu? Eu tenho quarenta e um anos feitos!
- E com essa idade ainda acreditas no Pai Natal?
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Elogios duvidosos
"Tu és um diamante em bruto, quando fores lapidado vais ser um jogador do caneco!"
Comentário relativo a certo jogador de dardos que atira as setas como um pastor atira pedras e quase destroi o alvo electrónico e frágil.
"Eu ouvi-vos com muito interesse, mas como estava cansado não aguentei muito tempo na sala. De qualquer maneira achei que vocês tocam umas coisas interessante, embora ache que vocês devem reformular e tornar coerente o repertório. Acho que vocês têm uma enorme margem de progressão!"
Relativamente a uns rapazes que andam nos bares a tocar ao vivo.
Comentário relativo a certo jogador de dardos que atira as setas como um pastor atira pedras e quase destroi o alvo electrónico e frágil.
"Eu ouvi-vos com muito interesse, mas como estava cansado não aguentei muito tempo na sala. De qualquer maneira achei que vocês tocam umas coisas interessante, embora ache que vocês devem reformular e tornar coerente o repertório. Acho que vocês têm uma enorme margem de progressão!"
Relativamente a uns rapazes que andam nos bares a tocar ao vivo.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Mais coisas boas
THE UNIVERSE SONG, from Monty Python's THE MEANING OF LIFE
Whenever life gets you down, Mrs. Brown, and things seem hard
or tough.
and people are stupid, obnoxious or daft,
and you feel that you've had quite enouuuuuuuuugh...
Just remember that your standing on a planet that's evolving,
and revolving at nine hundred miles an hour...
That's orbiting at ninety miles a second, so it's reckoned,
the sun that is the source of all our power.
The sun and you and me, and all the stars that we can see,
are moving at a million miles a day.
in an outer spiral-arm at forty thousand miles an hour
of the galaxy we call the Milky Way.
Our galaxy itself contains a hundred billion stars,
it's a hundred thousand lightyears side to side.
It bulges in the middle, sixteen thousand lightyears thick,
but out by us it's just three thousand lightyears wide.
We're thirty thousand lightyears from galactic central point,
we go 'round every two hundred million years.
And our galaxy is only one of millions of billions,
in this amazing and expanding universe.
The universe itself keeps on expanding and expanding,
in all of the directions it can whiz.
As fast as it can go, that's the speed of light you know;
twelve million miles a minute, that's the fastest speed there is.
So remember when your feeling very small and insecure,
how amazingly unlikely is your birth,
and pray that there's intelligent life somewhere up in space,
'cause there's bugger-all down here on earth!
http://www.youtube.com/watch?v=JWVshkVF0SY
Nota para quem não conhece a história:
Certo homem, movido pelo seu desejo de ajudar os outros, inscreveu-se num banco de doação de orgãos. Devido a isso, certo dia bateram-lhe à porta dois magarefes com o propósito de lhe tirar o fígado. O homem não queria doar o fígado, mas foi obrigado por ser detentor de um cartão de doador de orgãos.
Enquanto um dos magarefes procedia à extracção, o outro falava calmamente na cozinha com a mulher da vítíma, tentando persuadi-la a doar o fígado também. Como ela estava indecisa, aparece este estranho cantor que lhe canta o quão grande e complexo é o Universo, de tal forma que ela, esmagada pela evidência da sua pequenez e insignificância perante a grandeza e complexidade das galáxias, se deixa convencer plácidamente a ser sacrificada também.
Whenever life gets you down, Mrs. Brown, and things seem hard
or tough.
and people are stupid, obnoxious or daft,
and you feel that you've had quite enouuuuuuuuugh...
Just remember that your standing on a planet that's evolving,
and revolving at nine hundred miles an hour...
That's orbiting at ninety miles a second, so it's reckoned,
the sun that is the source of all our power.
The sun and you and me, and all the stars that we can see,
are moving at a million miles a day.
in an outer spiral-arm at forty thousand miles an hour
of the galaxy we call the Milky Way.
Our galaxy itself contains a hundred billion stars,
it's a hundred thousand lightyears side to side.
It bulges in the middle, sixteen thousand lightyears thick,
but out by us it's just three thousand lightyears wide.
We're thirty thousand lightyears from galactic central point,
we go 'round every two hundred million years.
And our galaxy is only one of millions of billions,
in this amazing and expanding universe.
The universe itself keeps on expanding and expanding,
in all of the directions it can whiz.
As fast as it can go, that's the speed of light you know;
twelve million miles a minute, that's the fastest speed there is.
So remember when your feeling very small and insecure,
how amazingly unlikely is your birth,
and pray that there's intelligent life somewhere up in space,
'cause there's bugger-all down here on earth!
http://www.youtube.com/watch?v=JWVshkVF0SY
Nota para quem não conhece a história:
Certo homem, movido pelo seu desejo de ajudar os outros, inscreveu-se num banco de doação de orgãos. Devido a isso, certo dia bateram-lhe à porta dois magarefes com o propósito de lhe tirar o fígado. O homem não queria doar o fígado, mas foi obrigado por ser detentor de um cartão de doador de orgãos.
Enquanto um dos magarefes procedia à extracção, o outro falava calmamente na cozinha com a mulher da vítíma, tentando persuadi-la a doar o fígado também. Como ela estava indecisa, aparece este estranho cantor que lhe canta o quão grande e complexo é o Universo, de tal forma que ela, esmagada pela evidência da sua pequenez e insignificância perante a grandeza e complexidade das galáxias, se deixa convencer plácidamente a ser sacrificada também.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
O Princípio de Peter
E foi um parto difícil.
O meu pai encaminhou a minha mãe para a única clínica particular de Douglas, na esperança de fugir às listas de espera e de ser mais bem tratada.
A clínica era chic, talvez, não poderemos negar. Mas o médico, que também não era menos, demorava-se no seu chá das cinco, tomado no recato do seu gabinete na companhia das duas enfermeiras mais novas da clínica, que na sua inocência provinciana se babavam na presença do médico, homem feito, quarentão de barba viril, sempre bem vestido e bem falante. Além disso, por ser médico, era idolatrado pelas pessoas do campo e quase todos os dias lhe chegavam a casa produtos de hortaliça fresca, ovos, galinhas, patos, coelhos, e tudo o mais que os seus clientes se conseguiam lembrar, já que muitos eram pessoas do campo sem grande capacidade para pagar as consultas em dinheiro, o que eles compensavam pagando com bens. Sendo assim, e sendo o médico um solteirão convicto, o mais desejado da região, era de todo natural que as duas moças sentissem umas humidades a crescer quando estavam com ele e tivessem reacções de colegial quando o viam passar.
Para além do chá das cinco o médico demorava-se a fumar o seu cigarro enquanto uma das enfermeiras lhe fazia massagens nos ombros e nas costas e a outra lhe lia um trecho de "O Vermelho e o Negro" de Stendhal, que ele gostava de ouvir na voz da enfermeira, tão cristalina e tão excelente leitora.
Quando finalmente se dispôs a ir tomar conta das ocorrências e dos seus doentes, encontrou então a minha mãe que, de tanto esperar, até já lhe tinham passado as contracções e estava desesperada e nervosa por imaginar que, por aquele andar, não só eu não nasceria, como ela iria desta para melhor provavelmente.
O médico assumiu os procedimentos de emergência e conseguiu tirar-me de dentro da barriga da minha mãe usando de uma ventosa que, colocada na minha cabeça, me puxou para fora.
Nasci feio e azulado. Mais um pouco e nasceria morto. A minha cabeça vinha afilada como a ogiva de um míssil intercontinental em virtude do uso da ventosa.
Ao ver-me, a minha mãe só teve tempo de murmurar entre dentes "Que feio! Coitadinho...", e depois desfalecer desmaiada do esforço imenso que foram aqueles momentos.
O meu pai encaminhou a minha mãe para a única clínica particular de Douglas, na esperança de fugir às listas de espera e de ser mais bem tratada.
A clínica era chic, talvez, não poderemos negar. Mas o médico, que também não era menos, demorava-se no seu chá das cinco, tomado no recato do seu gabinete na companhia das duas enfermeiras mais novas da clínica, que na sua inocência provinciana se babavam na presença do médico, homem feito, quarentão de barba viril, sempre bem vestido e bem falante. Além disso, por ser médico, era idolatrado pelas pessoas do campo e quase todos os dias lhe chegavam a casa produtos de hortaliça fresca, ovos, galinhas, patos, coelhos, e tudo o mais que os seus clientes se conseguiam lembrar, já que muitos eram pessoas do campo sem grande capacidade para pagar as consultas em dinheiro, o que eles compensavam pagando com bens. Sendo assim, e sendo o médico um solteirão convicto, o mais desejado da região, era de todo natural que as duas moças sentissem umas humidades a crescer quando estavam com ele e tivessem reacções de colegial quando o viam passar.
Para além do chá das cinco o médico demorava-se a fumar o seu cigarro enquanto uma das enfermeiras lhe fazia massagens nos ombros e nas costas e a outra lhe lia um trecho de "O Vermelho e o Negro" de Stendhal, que ele gostava de ouvir na voz da enfermeira, tão cristalina e tão excelente leitora.
Quando finalmente se dispôs a ir tomar conta das ocorrências e dos seus doentes, encontrou então a minha mãe que, de tanto esperar, até já lhe tinham passado as contracções e estava desesperada e nervosa por imaginar que, por aquele andar, não só eu não nasceria, como ela iria desta para melhor provavelmente.
O médico assumiu os procedimentos de emergência e conseguiu tirar-me de dentro da barriga da minha mãe usando de uma ventosa que, colocada na minha cabeça, me puxou para fora.
Nasci feio e azulado. Mais um pouco e nasceria morto. A minha cabeça vinha afilada como a ogiva de um míssil intercontinental em virtude do uso da ventosa.
Ao ver-me, a minha mãe só teve tempo de murmurar entre dentes "Que feio! Coitadinho...", e depois desfalecer desmaiada do esforço imenso que foram aqueles momentos.
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